A pesquisa de Virgo, sob o manto de Devir, prosseguia de forma prodigiosa. Com a atuação direta dele como reitor, os pesquisadores que antes eram deixados para pesquisar quaisquer assuntos de nicho que desejassem, agora uniam seus esforços para atuar em questões específicas. Principalmente se concentraram em pesquisas sobre como matar um semideus permanentemente, e se havia alguma maneira de transferir a divindade, e portanto o poder, de um semideus a outro.
O rei Dravok falsificou a sua própria morte quando o fato de ele permanecer jovem por tanto tempo ter começado a gerar rumores inconvenientes, o que fez com que a coroa fosse passada ao seu primogênito. Ele optou por não interferir no governo de seu filho, a não ser que se provasse extremamente necessário. Com um reino próspero, rico em conhecimento, mas ainda mergulhado em guerras permanentes, o novo rei se provou à altura do desafio, fruto das décadas de preparação que recebeu de seu pai.
No entanto, Dravok não havia se aposentado completamente, continuando a tomar a identidade do Legionário Fantasma quando a vontade de travar guerra era forte demais para se aguentar.
Por anos essa situação se manteve, com Elai mantido sedado em uma das câmaras mais subterrâneas da fortaleza do monastério do saber, profundas ao ponto de as rochas se provarem mornas ao toque. Até que foi notado que Lura desaparecera do Reino. Lura não era dos mais assíduos membros dessa aliança de semideuses, preferindo viver dentre os mortais, então era comum que sua presença não se fizesse notada por anos a fio. Mas quando Virgo percebeu que fazia uma década que Lura não dava notícia, ele mobilizou seus amigos semideuses, e estes mobilizaram todos os seus seguidores em busca do semideus do desejo.
O perigo era grande demais para ignorar, afinal, Lura era o mais novo membro do grupo e, além disso, ele tinha se provado menos disposto a fazer tudo que fosse necessário para depor os deuses se comparado com seus outros colegas imortais. Havia o risco de ele ter ido ter uma audiência com o deus do desejo em busca de leniência caso os denunciasse. Isso não poderia acontecer de maneira alguma, pois, caso as intenções proibidas do grupo vazassem, isso significaria a morte eterna de todos nas mãos de seus divinos pais.
Foram mobilizadas todas as forças domésticas de Garka em busca de Lura, mas por semanas não se ouviu nem rumores de sua localização. No entanto, essa busca não foi de todo desperdiçada, pois havia sido descoberto um padrão estranho de acontecimentos que começou na fronteira sul do Reino de Garka e que lentamente caminhou até a capital. Os rumores falavam de um fenômeno estranho: que em alguns lugares um silencioso tinha sido encontrado completamente tornado em uma massa disforme e malcheirosa de lama, fungos e vermes. Como se o processo de apodrecimento que Dilun se esforçou tanto para frear com seus elixires e procedimentos usados na mumificação se acelerasse em uma velocidade impossível para a natureza.
Não havia dúvida, esse era o rastro de atividade de um semideus. Provavelmente um semideus da natureza, Virgo supôs. Talvez estivesse ali por vingança pelo semideus controlador de árvores de décadas atrás, afinal, as memórias de rancores de semideuses são compreensivelmente duradouras. Deixando a busca por Lura de lado por hora, o foco das buscas se concentrou nesse semideus desconhecido que, se o padrão perdurasse, já estaria na capital.
Em menos de uma semana, foi encontrado um silencioso doméstico em estado de putrefação avançada, em uma mansão de um dos nobres da cidade, e outro, uma silenciosa de prazer, encontrada putrificada em um dos prostíbulos da cidade onde eram atendidos gostos diferenciados. Esses locais foram inspecionados abrangentemente, mas foi esforço em vão, não havia nada de diferente, e ninguém havia visto pessoa alguma que chamasse a atenção. No dia seguinte, mais silenciosos foram encontrados desfeitos e, com isso, foi possível traçar um caminho pela cidade. Parecia algo errante, mas Virgo foi capaz de achar um padrão na loucura, não havia dúvida, todos os lugares atacados eram próximos de um dos centros do culto sendarino. Esse semideus estava atacando os sendaristas.
Foram colocados reforços compostos por silenciosos e legionários nos pontos mais prováveis de se ter um ataque, e durante um dia todo nenhum ataque ocorreu na cidade.
Enquanto isso, no monastério, Virgo encontrou um dos silenciosos apodrecidos do lado de dentro da fortaleza. Rapidamente, o alerta vermelho foi soado, e com isso a fortaleza havia sido lacrada, ninguém iria entrar ou sair. Por um momento, os três semideuses ponderaram o porquê de esse semideus estar ali e, de imediato, imaginaram que ele estava ali para resgatar Elai. O mais rápido que puderam, correram até os confins mais profundos de sua fortaleza para checar.
Dravok moveu a grande rocha que ele mesmo havia colocado lá, que selava o corpo sedado de Elai em uma câmara escavada na pedra bruta. E lá estava o semideus do conhecimento, deitado, inconsciente como o deixaram. Se não veio por Elai, por que esse invasor estaria ali? Enquanto ponderavam a questão, os três se armaram com as seringas de elixir que deixa semideuses em coma, também armazenadas ali por ser o local mais seguro e secreto de todo o reino. Retornaram aos níveis superficiais da fortaleza e encontraram nos laboratórios de pesquisa, uma cena de caos e pânico, praticamente todos os silenciosos estavam desfeitos, e o contingente de legionários não sabia o que fazer, exceto ordenar os pesquisadores a retornar a seus aposentos.
Dravok e Virgo, preocupados que o invasor iria fugir após o ataque como de costume, foram em direção à saída do monastério, onde viram de longe que os silenciosos protetores da entrada haviam sido desfeitos, que a porta principal estava escancarada, e que, mais ao longe, no exterior pela estrada que desce a montanha, uma figura corria apressada. Dravok deu perseguição e o alcançou rapidamente. Assim que o semideus da guerra estava ao alcance de fala desse invasor, ele tentou iniciar uma conversa. O semideus, um homem pálido, magro, alto, de cabelos escuros lisos compridos, vestindo trajes negros e soltos, em resposta, somente se virou e puxou uma faca curva de tonalidade dourada similar a um gancho afiado.
Dravok se preparou para um combate, preparando seu punho fechado em uma mão e empunhando a seringa na outra, mas se surpreendeu com o que viu. O semideus oponente não partiu para o ataque, pelo contrário, ele apenas afundou a lâmina curva em seu próprio pescoço, abrindo um corte suicida. Dravok não pretendia deixá-lo retornar ao Nexo e escapar, e acelerou na direção de seu inimigo, que, por sua vez, largou a faca, enfiou as mãos em seu corte aberto e, em uma mostra incrível de força de vontade ou desespero, ignorando a dor, alargou seu ferimento grotesco do pescoço, matando-o imediatamente. Era tarde demais, esse semideus havia escapado.
Dravok trouxe o corpo de volta para a fortaleza para que Virgo o examinasse. Este concluiu que se tratava de um semideus da morte, com o poder de acelerar o processo de decomposição dos corpos dos mortos. Pouco tempo depois, a normalidade que havia sido restabelecida foi quebrada novamente. Mais silenciosos foram encontrados desfeitos pelo monastério, dessa vez, nos aposentos dos pesquisadores. Os três semideuses pensaram na mesma coisa: o ponto de retorno da fortaleza.
Lá, encontraram sinais de que sim, um semideus havia recentemente retornado por lá, o leve cheiro característico que fica quando um semideus se materializa, os objetos jogados fora do lugar, a leve marca fresca de queimado no chão. Não havia dúvida, esse invasor sabia da câmara de retorno e a usou. Ele tinha se matado, não para escapar, mas para se esconder novamente. Para evitar que isso se repetisse, Dravok tomou um dos pesados ladrilhos do chão, maiores que pessoas, usando as mãos nuas, e selou a sala de modo que homem algum iria conseguir abri-la.
Os legionários de Dravok haviam achado algo nesse meio tempo: encontraram um corpo nu, morto por estrangulamento, enfiado às pressas em um armário. O invasor se disfarçou de pesquisador, concluíram, e por conta disso, os semideuses ordenaram que todos os pesquisadores se apresentassem no salão de guerra.
Lá, não encontraram o semideus, mas deram falta de um dos pesquisadores, além do que fora encontrado morto antes. O invasor havia matado mais um. Mesmo assim, com a fortaleza trancada e com os reforços de legionários vivos a postos, ele não escaparia.
A noite avançou até o amanhecer, sem que esse semideus fosse encontrado.
No dia seguinte, todos estavam em alerta máximo, em busca desse semideus que conseguira não somente se esgueirar para fora de uma fortaleza selada, mas que tinha o poder de destruir a preciosa mão de obra e exército do reino. Silenciosos foram colocados em alerta máximo, legionários foram espalhados pela cidade. Os próprios semideuses se juntaram às buscas pessoalmente.
Dilun estava fazendo uma ronda próxima a um de seus templos, honrando o crânio com a vela em cima, quando foi abordado por trás pelo invasor, que se apresentou como Ilum-La, um servo do deus da morte, seu meio-irmão. Mas antes que houvesse tempo para que Ilum-La continuasse, em um golpe de genialidade, Dilun fingiu estar fraco por um momento, fazendo com que seu captor abaixasse a guarda por um instante. Isso foi o fim dele, pois em um único movimento fluido, Dilun o espetou com a seringa e pressionou o êmbolo, injetando o elixir de toxinas e preservantes desenvolvidos precisamente com o intuito de tornar o corpo imortal de um semideus em uma gaiola, nocauteando-o em minutos. Ele pareceu tentar dizer alguma coisa, mas o sedativo agiu rápido demais.