Após a descoberta de Virgo do mecanismo para se extrair a divindade de um semideus, o próximo passo era claro: a consolidação de poderes divinos através da captura de mais semideuses. De imediato, apenas tinha-se notícia de um semideus da guerra chamado Brask, que tinha o poder de obter maestria perfeita de qualquer armamento que ele empunhasse. Brask era um velho inimigo de Garka e do Legionário Fantasma, e frequentemente, como resultado de suas batalhas contra o exército real, ocorria a morte temporária de um dos dois semideuses.
Devido ao fato de que Dravok não faz uso de armas, com exceção de suas bolinhas de aço, ficou decidido deixar Brask de lado por ora, o que os levou de volta ao fato de que não sabiam onde encontrar semideuses de forma confiável. Virgo, agora sob o manto do Professor Katágola, tinha obtido uma lista de nomes de semideuses do conhecimento, mas sem nenhum outro detalhe, como aparência, poder ou localização. Seria como procurar por uma pessoa só pelo nome pelo planeta todo. Para não perder tempo pessoalmente com isso, Virgo colocou os seus estudiosos para pesquisar pelos anais da história por esses nomes, em busca de mais informações.
Foi então, nessa conversa, que surgiu a ideia de fazer os semideuses virem até Garka. Mas como atraí-los? Semideuses são, em sua maioria, seres vaidosos, tais quais seus pais imortais. Então o plano era dar uma plataforma para eles se vangloriarem. E que evento seria melhor que uma competição?
Foi decidido que Garka organizaria um evento desportivo, acadêmico e de provas de habilidades e ofícios, para que os competidores provem ser os melhores de suas respectivas áreas. O evento foi marcado para acontecer em cinco anos. Essa meia década seria usada tanto para construir a grandiosa arena que hospedaria os jogos, quanto para espalhar aos quatro ventos a notícia de que esses jogos aconteceriam, e que todos seriam bem-vindos.
O plano era que a cada cinco anos esses jogos acontecessem, com diversos motivos, primariamente para que semideuses se revelassem, mas também para espalhar a cultura do Reino de Garka para o mundo.
Um jovem arquiteto, Aclamir, apresentou aos imortais um projeto ambicioso, uma grande arena que já estaria pronta para o evento inicial em cinco anos, e que com o passar das décadas, no final do século, se tornaria a maior torre do mundo, rivalizando inclusive com a Grande Espira da Cidade Mecânica ao sul. Foi a primeira vez que ouviram falar dessa cidade.
Em suas conversas com o jovem Aclamir, descobriram que existe um suposto Rei Deus dessa cidade, o grande inventor e arquiteto imortal de autômatos, com certeza, um semideus. Mal a ideia desses jogos passou a existir, e já estava trazendo frutos. A Cidade Mecânica ficava no extremo sul do continente de Pardoris, muito além do deserto que beirava a agora arruinada vila de Elai, muito além da rede de informações de Garka.
Como a viagem envolveria cruzar o grande deserto que corta Pardoris em dois, os semideuses optaram por viajar sem comitiva de mortais. Não, dessa vez, para acelerar o passo, viajariam sem intervalo por um ano em uma grande liteira movida por duas dúzias de silenciosos, acompanhados somente dos novos silenciosos guardas pessoais de Dilun: Pepê e Neném, brutamontes costurados, feitos dos melhores restos mortais que seus cultistas puderam providenciar.
Ao sair de Garka, presenciaram a completa ruptura dos reinos vizinhos, como era de costume. O que era diferente, no entanto, era o estado da civilização além do grande deserto. Após um mês de viagem pelas dunas douradas, se depararam com reinos desenvolvidos, culturas florescentes e uma selva densa e úmida. Era gritante a diferença entre as migalhas de civilização que Garka tinha tornado a metade norte do continente e as belas culturas em plena evolução da metade sul.
Após mais essa outra metade de sua jornada atravessando a metade sul do continente, o grupo de semideuses finalmente chegou ao litoral sul, cuja costa deslizava ao sul entre o mar e uma planície de campina. Acompanhando a costa, crescendo do horizonte, viram uma edificação pontiaguda. Estava longe o suficiente para não se enxergar detalhes, mas não havia dúvidas, devia se tratar da Grande Espira da Cidade Mecânica.
Pouco impressionados pela sua altura naquele momento, eles prosseguiram na sua direção, e ao contrário do que se esperava, a torre somente subia mais e mais do horizonte. Até que 4 dias após a terem avistado inicialmente, finalmente avistaram a sua larga fundação. Somente ela já era larga a ponto de encobrir toda a Capital Garkana. Isso sem mencionar as imensas muralhas que a rodeavam. A capital de Garka dispunha de impressionantes muralhas de pedra com 10 metros de altura, mas perto das muralhas da Cidade Mecânica, não passavam de pequenos muros. Essas muralhas à frente deles eram de um material estranho, sem cortes ou emendas, e tinham facilmente mais de 40 metros de altura. E não tinham portões.
De cima das muralhas, uma espécie de oficial da fronteira se dirigiu a eles, por meio de uma grande concha espiral metálica que amplificava a sua voz, afirmando que não importava quem fossem, que deveriam retornar para onde vieram, ou enfrentar a morte. Após uma curta apresentação como uma comitiva de Garka, os semideuses foram bem-vindos e chamados diretamente para falar com o Rei Deus.
Subiram em uma plataforma que os levou até o topo da muralha, ou melhor, não se tratava de uma muralha, era a própria fundação da espira. Na sua base mais larga, empilhavam-se casas de madeira, presas diretamente à estrutura. Já o restante da espira era composto de algum metal estrutural, nunca antes visto pelos semideuses, uma estrutura aberta, que abrigava campos hidropônicos, moradias estranhas e muitos autômatos esféricos patrulhando tudo constantemente. Os semideuses foram levados por uma plataforma que levou duas horas para fazer o percurso todo da fundação até o topo da espira pelo seu exterior.
No topo os esperava o Rei Deus da Cidade Mecânica: um homem de pele bronzeada e roupas leves, com cabelos negros curtos e um cavanhaque esperto. Após uma rodada de conversas acaloradas, o resultado foi que não havia possibilidade de uma aliança entre Garka e a Cidade Mecânica, mas que esta iria sim comparecer aos jogos Garkanos em quatro anos, com a promessa de derrotar Garka em todas as competições.
Retornando a Garka, os semideuses se separaram. Dravok se direcionou até a fortaleza, levando a carroça autônoma que receberam na Cidade Mecânica para ser estudada pelos pesquisadores de Virgo. Já Dilun e Virgo se direcionaram para os arredores onde o exército de Brask costumava estar. Não foi difícil de encontrar, afinal se tratava de um imenso exército que facilmente teria mais de 40.000 cabeças.
Lá eles conseguiram uma audiência com Brask, sob o disfarce de enviados do sul que desejavam contratar o exército mercenário dele para atacar a Cidade Mecânica.
Brask se mostrou simpático à história do par de semideuses, mas se recusou a ajudar, pois ele já tinha olhos para um objetivo em especial, a destruição do nefasto reino de Garka, os responsáveis pela destruição da metade norte de Pardoris.
O plano de Brask era ousado, agindo sob o pretexto de que os poderes de seja quem for que trazia os mortos de volta como escravos funcionavam somente uma vez por ano, ele pretendia atacar em alguns anos, com 100.000 homens, meses antes dessa hora de ressurreição. Sua lógica era boa, com um ataque massivo desses ele garantiria a vitória esmagadora, e com meses de distância até que o ritual de reanimação fosse ocorrer, ele poderia evitar ter seu exército usado contra si. Uma pena que ele tenha sido tão comunicativo com seus planos, e que Dilun não tivesse tal limitação, apenas mantendo esse ritual como anual por motivos logísticos e para criar um ar de misticismo em seu culto.
Dilun, sabendo dos planos de invasão que estavam sendo incubados, usando uma desculpa de voltar ao sul, retornou até Garka para deixar Dravok a par da situação, e também para pesquisar maneiras de melhorar seu elixir usado para manter semideuses em coma.
Enquanto isso, Virgo, sob a identidade de Professor Katágola, conseguiu se infiltrar no exército inimigo ao ser contratado por Brask, afinal um sábio com conhecimento militar era um tipo de pessoa que simplesmente não existia mais nas proximidades. Brask absolutamente tinha que tê-lo para seu exército.